Oitava sessão. Ela chega mais leve, sorri na porta, senta diferente. As crises de ansiedade diminuíram. Dorme melhor. Conversou com a mãe sem brigar pela primeira vez em anos. E então, quase no fim, diz: "Acho que já estou bem. Talvez seja hora de parar."

Você sente duas coisas ao mesmo tempo. Alegria, porque algo realmente mudou. E uma inquietação difícil de nomear, porque justamente na semana anterior ela tinha começado a falar do pai. Pela primeira vez.

Essa cena acontece em todos os consultórios. E ela coloca o terapeuta diante de uma das decisões mais finas da clínica: respeitar a melhora sem confundir melhora com cura, e respeitar o desejo de parar sem fingir que ele não diz nada.

O alívio que chega cedo demais

Em 1913, em "Sobre o início do tratamento", Freud já observava que o começo de uma análise costuma trazer melhoras rápidas. O paciente encontra alguém que escuta, deposita no terapeuta uma confiança nova, e o sintoma afrouxa. Esse alívio é real. Mas ele se apoia, em boa parte, na relação que acabou de nascer, e não ainda no trabalho de compreender o que produzia o sofrimento.

Décadas depois, a literatura psicanalítica deu um nome a esse movimento: fuga para a saúde. É quando a melhora funciona como resistência. O paciente fica bem o suficiente para não precisar entrar no que dói. A saúde, nesse caso, não é chegada. É saída de emergência.

Nem toda melhora é cura. Às vezes ela é só a porta que o paciente encontrou para não atravessar o corredor. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

Mas cuidado: a melhora também pode ser verdadeira

O risco oposto é igualmente sério. O terapeuta que enxerga resistência em toda vontade de encerrar transforma o setting numa prisão elegante. Há pacientes que vieram por uma questão delimitada, trabalharam nela e resolveram. Há pacientes que precisam de uma pausa para viver o que mudou. E há pacientes que simplesmente não querem mais, e esse não querer é um direito.

Em 1937, em "Análise terminável e interminável", Freud descreveu duas condições para pensar o fim de uma análise: que o paciente não sofra mais com seus sintomas e tenha superado angústias e inibições, e que o analista julgue que foi tornado consciente material suficiente para que não se tema a repetição dos mesmos processos. Repare que as duas condições pedem algo além do alívio. Pedem que a mudança tenha raiz.

O que a pesquisa diz sobre encerramento precoce

Um em cada cinco pacientes encerra antes do combinado

Na meta-análise de Joshua Swift e Roger Greenberg publicada em 2012 no Journal of Consulting and Clinical Psychology, que reuniu mais de 650 estudos e mais de 83 mil pacientes, a taxa média de interrupção prematura da psicoterapia ficou em torno de 20% (19,7% na estimativa ponderada). Os próprios autores ressaltam que nem todo encerramento antecipado significa fracasso: parte dos pacientes interrompe justamente porque melhorou o suficiente para o que buscava. A leitura clínica é a mesma deste texto: o número sozinho não diz se a saída foi fuga ou alta. Quem diz é a escuta.

Cinco perguntas para diferenciar fuga e alta

Não existe fórmula. Mas existem sinais que, somados, ajudam o terapeuta a ler o que está acontecendo. Antes de responder ao pedido do paciente, responda a estas perguntas para si mesmo.

Roteiro de escuta antes da resposta
1. Quando surgiu o desejo de parar?
Logo depois de um tema difícil aparecer, ou depois de um período estável de trabalho? O momento do pedido costuma dizer mais do que o pedido.
2. A melhora tem explicação ou só tem efeito?
O paciente consegue dizer o que mudou nele, ou só relata que os sintomas sumiram? Mudança elaborada tem palavras. Alívio transferencial costuma ter só sensação.
3. A queixa inicial foi trabalhada ou apenas silenciou?
Volte à primeira sessão. O que trouxe o paciente foi compreendido, ou apenas parou de incomodar?
4. Como o paciente fala do fim?
Com tranquilidade e gratidão, ou com pressa, irritação e uma certa urgência? A forma de sair repete muitas vezes a forma de viver os vínculos.
5. O que eu sinto diante do pedido?
Alívio, raiva, medo de perder o paciente, preocupação com a agenda? A contratransferência é dado clínico, e também pode enganar. Leve à supervisão antes de decidir.

Como conversar sem prender e sem soltar cedo demais

A pior resposta é a imediata. Tanto o "claro, foi ótimo trabalhar com você" quanto o "acho que você ainda não está pronto" fecham a conversa no momento em que ela deveria se abrir.

Experimente algo como: "Fico feliz com o que mudou, e acho importante a gente olhar juntos para esse desejo de parar. Podemos usar as próximas sessões para isso?" A frase reconhece a melhora, não desqualifica o pedido e transforma o encerramento em material.

Muitas vezes, ao ser escutado com seriedade, o pedido muda de forma. O paciente percebe que queria parar justamente porque se aproximava de algo. Outras vezes, a conversa confirma que é hora mesmo. Nos dois casos, o fim deixa de ser uma fuga e passa a ser uma decisão.

O terapeuta não decide se o paciente vai embora. Ele decide se o paciente vai embora sabendo por quê. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

Quando a decisão é parar

Se o paciente decidir encerrar, mesmo que você enxergue ali uma fuga, respeite. Combine sessões de fechamento, faça um balanço do percurso, nomeie com delicadeza o que ficou em aberto e deixe a porta explicitamente aberta para um retorno. Registre no prontuário a decisão, os motivos apresentados e a sua avaliação clínica, de forma objetiva.

Muitos pacientes que saem cedo voltam meses ou anos depois. E voltam com mais facilidade quando a saída foi cuidada. O encerramento bem conduzido não é o fim do vínculo terapêutico. Muitas vezes é a sua condição de continuidade.

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DC
David Carvalho Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano com consultório em Atibaia-SP. Contato: atendimento@mundodoterapeuta.com.br