Você interpretou cedo demais. Esqueceu um nome importante que o paciente repetiu três vezes. Remarcou a sessão em cima da hora. Deixou escapar um olhar de impaciência. O paciente não disse nada. Mas na semana seguinte, ele chegou dez minutos atrasado.

E você sabe. Algo aconteceu ali.

O erro clínico é a parte da profissão de que menos se fala e que mais acontece. Nas formações, aprendemos técnica, teoria e ética. Raramente aprendemos o que fazer na hora seguinte ao equívoco, quando o desconforto pede que a gente siga em frente fingindo que nada houve.

Até Freud errou, e escreveu sobre isso

Em 1905, Freud publicou o caso Dora. A paciente interrompeu o tratamento depois de apenas três meses. No posfácio do texto, Freud faz algo raro para a época: admite que não percebeu a tempo a transferência que se formava e que essa falha contribuiu para o fim abrupto do processo.

O texto que muitos estudam como exemplo de técnica é, na verdade, um registro honesto de um erro. E talvez seja justamente por isso que ele ensina tanto. A psicanálise nasceu, em parte, da disposição de examinar onde o analista falhou.

O erro não é o oposto da boa clínica. A boa clínica é o que o terapeuta faz depois do erro. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

O que a pesquisa chama de ruptura

Jeremy Safran e Christopher Muran dedicaram décadas a estudar um fenômeno que todo terapeuta conhece na pele: as rupturas da aliança terapêutica. São momentos de tensão ou de quebra na colaboração entre paciente e terapeuta. Às vezes visíveis, como uma queixa direta. Às vezes silenciosas, como o paciente que concorda com tudo e não volta.

A descoberta mais importante desse campo não é que rupturas acontecem. É que, quando são reconhecidas e trabalhadas, elas tendem a se associar a resultados melhores, e não piores. O erro reparado vira um momento de aprofundamento do vínculo.

Pesquisa sobre aliança terapêutica

Ruptura e reparo: o que os estudos mostraram

Na meta-análise "Repairing Alliance Ruptures", publicada na revista Psychotherapy, Safran, Muran e Eubanks-Carter encontraram associação positiva entre episódios de ruptura seguidos de reparo e o resultado do tratamento (r = 0,24, em 3 estudos com 148 pacientes). Na mesma revisão, terapeutas treinados para identificar e trabalhar rupturas apresentaram melhora significativa entre o antes e o depois do treinamento (r = 0,65, em 8 estudos com 376 pacientes). A leitura clínica é direta: reparar é uma competência, e competências podem ser aprendidas.

Os três destinos do erro clínico

Diante de um equívoco, o terapeuta costuma seguir um de três caminhos. Só um deles serve ao paciente.

  • Negar: seguir como se nada tivesse acontecido. O paciente percebe a incongruência, mesmo sem nomeá-la, e aprende que naquele espaço certas coisas não podem ser ditas.
  • Inundar: pedir desculpas em excesso, se justificar, explicar a própria vida. O centro da sessão migra para a culpa do terapeuta, e o paciente passa a cuidar de quem deveria cuidar dele.
  • Reconhecer e elaborar: nomear o que aconteceu com simplicidade, abrir espaço para o paciente dizer o que sentiu e tratar o episódio como material clínico. É o único destino que transforma o erro em trabalho.
Protocolo de reparo na prática
1. Perceba os sinais indiretos
Atrasos novos, faltas, silêncio diferente, concordância excessiva, mudança de tom. Rupturas raramente se anunciam. Elas aparecem nas bordas do setting.
2. Nomeie sem dramatizar
"Fiquei pensando na nossa última sessão. Acho que fui rápido demais naquela interpretação. Como foi para você?" Curto, específico e aberto. Sem discurso, sem autoflagelação.
3. Escute a resposta como material
O que o paciente faz com o seu reconhecimento diz muito sobre a história dele com figuras de autoridade. Raiva, alívio ou desconfiança, tudo é clínico.
4. Leve o episódio à supervisão
Pergunte o que no seu próprio funcionamento facilitou aquele erro. Cansaço, contratransferência, pressa. O erro que se repete costuma ter raiz no terapeuta, não no paciente.
5. Registre no prontuário
Descreva o episódio e o manejo de forma objetiva e descritiva. O registro protege o paciente, o processo e você.

Quando o erro acontece fora do consultório

Nem todo equívoco nasce dentro da sessão. Uma mensagem enviada ao paciente errado. Uma cobrança indevida. Um horário duplicado na agenda. Uma informação compartilhada sem cuidado num grupo de colegas. Esses erros administrativos e éticos também afetam a confiança, às vezes mais do que uma intervenção infeliz.

O princípio é o mesmo: reconhecer, corrigir e, quando houver qualquer dado sensível envolvido, avaliar com seriedade o impacto à luz do sigilo profissional e da LGPD. A organização do consultório não é burocracia. É prevenção de erro.

A vergonha do terapeuta

Por trás do erro escondido quase sempre existe vergonha. O terapeuta que se exige perfeito tende a esconder suas falhas, inclusive de si mesmo. E o que é escondido não pode ser elaborado.

Winnicott escreveu que o paciente, em certos momentos, precisa justamente das falhas do analista para viver algo que não pôde viver antes. Não se trata de errar de propósito. Trata-se de entender que o terapeuta suficientemente bom não é o que nunca falha, mas o que sobrevive às próprias falhas sem abandonar o paciente.

O paciente não precisa de um terapeuta que nunca erra. Precisa de um terapeuta que não desaparece quando erra. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

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DC
David Carvalho Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano com consultório em Atibaia-SP. Contato: atendimento@mundodoterapeuta.com.br