Terça-feira, 15h. A sessão está marcada. O paciente não aparece. Às 15h20 chega uma mensagem: "Desculpa, esqueci completamente."
E agora você precisa decidir, ali, sozinho, se cobra ou não cobra. Se cobrar, parece rígido. Se não cobrar, abre um precedente. Se fingir que não aconteceu, o assunto volta na próxima falta, maior.
Esse dilema não é falta de caráter nem falta de firmeza. É falta de política. Quando a regra não existe antes da falta, cada falta vira uma negociação.
A falta tem duas faces
Para o terapeuta, a falta tem um lado concreto: o horário estava reservado, não foi ocupado por outra pessoa e não volta. Mas ela também tem um lado clínico. O esquecimento, o atraso repetido, o cancelamento sempre na véspera de um tema difícil, tudo isso diz algo sobre o momento do processo.
Uma boa política de cancelamento cuida das duas faces ao mesmo tempo. Ela protege a agenda sem transformar o setting em tribunal, e deixa espaço para que a falta seja pensada, e não apenas cobrada.
O que Freud já dizia sobre a hora reservada
Em 1913, no texto "Sobre o início do tratamento", Freud descreveu a lógica que muitos analistas seguem até hoje: o paciente aluga uma hora determinada do analista e é responsável por ela, mesmo que não a utilize. A ideia não era punir. Era reconhecer que, sem esse acordo, as faltas tendem a se multiplicar justamente nos momentos em que o trabalho fica mais intenso.
Você não precisa adotar a regra de Freud ao pé da letra. Mas vale guardar o princípio: o horário do terapeuta tem valor, e o paciente precisa saber disso desde o primeiro dia.
O que diz o código e o que diz a lei
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP 10/2005), no Art. 4º, orienta que o valor do trabalho seja estipulado e comunicado ao paciente antes do início do atendimento. A mesma lógica vale para as condições de cobrança de faltas: o que não foi combinado previamente não deve ser cobrado. Do lado do consumidor, o Código de Defesa do Consumidor, no Art. 51, considera nulas as cláusulas que coloquem o cliente em desvantagem exagerada. Por isso, a política precisa ser clara, proporcional e aceita por escrito. Em caso de dúvida sobre redação contratual, vale consultar um advogado.
Os cinco elementos de uma política que funciona
Como montar sua política de faltas e cancelamentos
Como apresentar a política sem soar frio
O tom faz diferença. Em vez de "falta não avisada será cobrada", experimente algo como: "Seu horário fica reservado só para você toda semana. Por isso, cancelamentos com menos de 24 horas de antecedência são considerados como sessão realizada."
A informação é a mesma. A diferença é que a segunda frase explica o porquê. O paciente entende que a regra protege o lugar dele, e não apenas o bolso do terapeuta.
Quando a falta é material clínico
A política resolve a parte administrativa. A parte clínica continua sendo sua. Faltas repetidas, cancelamentos sempre no mesmo dia da semana ou logo depois de uma sessão intensa merecem ser trazidos para a conversa, com curiosidade e sem acusação.
"Percebi que você faltou nas duas últimas semanas, logo depois que começamos a falar sobre seu pai. O que você acha que aconteceu?" A cobrança já foi feita pela política. A sessão fica livre para o que importa: entender.
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